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E porque te resgato em minha memória que sofro. Porque insisto no seu sorriso meio amarelado de fim de tarde de primavera que continuo a chorar. Porque você era simetricamente minha e me fazia rir enquanto a chuva debatia querendo entrar na nossa casa. E quando conseguia você me protegia, me agarrava e dançávamos, na chuva, na tempestade que se formava em nossas vidas. E porque te pego em minha lembrança e te pinto novamente comigo, criando ilusões, fantasia, sonhos. Mas é tão bom sonhar. Sonhar com teu sorriso de novo, com teu andar descompasso, passo, devagar, arredio. Com teu brio de vento vagueiro, tocante. E se lembro é porque ainda faz falta. Sinto um vazio dos risos, dos abraços, das poesias… lembra que não dormíamos porque ficávamos lendo poesias? Então, agora as leio sozinho; e penso.. em você. Em você, e no seu canto de pássaro condor.
(…) “Aonde estás?” Me pergunto. E logo deixo correr umas lágrimas e sorrio. Penso que deves está por aí, colhendo as flores que um dia te dei.
Nós combinávamos. O sorriso dele surgia quando eu estava por perto, e era engraçado e clichê comentar, mas até acho que éramos mesmo feitos um para o outro. Mas passou rápido. Durou um mês ou dois, um segundo ou outro, e o encanto acabou se esvaindo aos poucos. Ele encontrou outra pessoa, que lhe fazia sorrir ainda mais fácil e o encantava com qualquer comentário bobo. Não se envolveu muito diretamente. No começo, era só uma amiga. Mas me incomodava saber que um dia nós dois havíamos sido também somente dois amigos. Acabamos nos afastando. As brigas se tornaram mais frequentes… E eu sentia muito a falta de alguém que um dia havia realmente me amado, mas ele simplesmente parecia não se importar. O amor passou aos poucos, junto com o encanto. As coisas foram se tornando mais complicadas. Ela, enquanto nos afastávamos e corroíamos aos poucos, foi se tornando cada vez mais doce e presente. Cada vez mais compreensiva. Depois, soube que ele desabafava com ela sobre nós dois. Isso me doeu. Não demorou muito, e acabamos terminando tudo. Eles se aproximaram mais. Enquanto eu sofria, os dois se divertiam, juntos. Logo começaram a namorar. Isso me fez doer ainda mais, mas precisei aprender a lidar com a falta. Voltei a observar os sorrisos, os jeitos, os trejeitos e manias de outros garotos. Ele havia encontrado o seu amor verdadeiro, enquanto eu continuava me divertindo por aí. E foi bom - gosto de pensar dessa forma. Porque, por mais que tenha doído no começo, me serviu para provar que nem sempre o amor acontece do jeito que queremos - mas que, de qualquer forma, sempre se torna inesquecível. Tudo isso deixou marcas, mas aprendi a lidar com o assunto. Às vezes sinto saudades, mas logo me distraio com outros meninos… E fico feliz por saber que ele está bem, mesmo ao lado dela. Ele está feliz, sabe? Encontrou o amor perdido no cantinho daquele sorriso. E eu, bom, ainda o procuro em cada riso, cabelo, olhar e corpo que encontro. E, apesar de tudo, sei que um dia eu o encontro.
Letícia Loureiro